RadioCulturaViva.Com
                                   MÚSICAS E INFORMAÇÕES 24 HORAS POR DIA                                                                                       

O "MIMIMI" DA MULHERADA

08 MAR 2016
08 de Março de 2016

Cá estou eu, acompanhando a modinha de quem não gosta de ouvir gritos: A modinha do “MIMIMI”. Então resolvi  escrever sobre o MIMIMI da mulherada. Mas preciso pontuar alguns desses “mimimis”.

Por exemplo: O MIMIMI de Margarida Alves. É dela a frase que diz: “É melhor morrer na luta do que morrer de fome”. Margarida mobilizou trabalhadores rurais no interior paraibano, reivindicando e conquistando direitos que lhes eram tomados ou omitidos pelos opressores da região. Incluiu mulheres na luta e usou a educação como principal ferramenta de conscientização. É muito MIMIMI.






Margarida Alves

Podemos ultrapassar fronteiras e falar de Rosa Louise McCauley, conhecida como Rosa Parks. Costureira que ficou famosa no dia 1º de dezembro de 1955, após negar-se a ceder seu lugar no ônibus a um branco. Essa decisão lhe custou a prisão. Mas rendeu frutos. Após ter sua fiança paga, Rosa deixou a prisão no dia seguinte. No dia 4 de dezembro, ativistas de Direitos Civis convocaram um boicote aos ônibus de Montgomery. Numa conversa inicial, esse boicote duraria 1 dia. Mas durou 381 dias. Em 1956, a Corte americana julgou inconstitucional a segregação racial em transportes públicos. Não foi porque a Corte americana era boazinha. Foi por causa do MIMIMI que começou com Rosa Parks. 

Rosa Parks


Que tal falarmos de Ranúsia Alves Rodrigues? Pernambucana de Garanhuns. Estudante de enfermagem pela Universidade Federal de Pernambuco. E que não se curvou à covardia da ditadura. Lutou até onde foi possível. Por viver na clandestinidade, teve de abrir mão da própria filha, Vanúsia, para evitar que os carrascos a maltratassem. Seus pais se recusaram a cuidar da criança, mas uma empregada da família, Almerinda de Aquino, Acolheu e criou Vanúsia, que só ficou sabendo de tudo, em 1991. Ranúsia também usava os codinomes Florinda, Nuce e Olívia. Foi assassinada brutalmente no dia 27 de outubro de 1973. Foi metralhada. Incomodou ditadores com seu MIMIMI.

Ranúsia Alves Rodrigues


E Tereza de Benguela? Líder do Quilombo do Quariterê, no Mato Grosso, assumiu o posto quando seu marido, o chefe José Piolho foi assassinado numa emboscada de soldados. Sob o comando de Tereza, a comunidade resistiu duas décadas a várias tentativas dos carrascos, que tentavam destruir Quariterê. No Quilombo havia Parlamento, Conselho para a Rainha, agricultura de algodão, fabricação de tecidos para comercialização, entre outras atividades organizadas, além de forte sistema de defesa contra os soldados do sistema. Quando os negros fugiam das senzalas, chegavam ao Quilombo ainda com amarras e correntes. Todo o ferro era retirado e transformado, dentro de Quariterê, em instrumentos de trabalho através da forja. Em 1770, Tereza foi morta, degolada e sua cabeça foi pendurada num poste no centro do Quilombo. Incomodou porque estava de MIMIMI.

Tereza de Benguela.

E olhem... Só foram alguns poucos (e consistentes) exemplos. Nem comentei sobre as guerrilheiras de Canudos... Nem de Maria da Penha... Nem de Carolina Maria de Jesus... Nem de Lélia Gonzáles... Nem de Annie Lumpkins... Nem das irmãs Mirabal... Nem de Cora Coralina... Nem de Evita Peron... Nem de Benazir Bhutto... Nem de Frida Kahlo... Nem de tantas outras, que se fôssemos comentar, esse texto se transformaria em um livro com várias edições.

Todas cheias de MIMIMI.

É que o “normal” seria que tudo ficasse sempre do mesmo jeito. Sempre. Mulheres sem direito a voto. Mulheres sem direito de separar-se. E se isso acontecer, qualquer outro relacionamento que ela possa ter, é considerado adultério. E o adultério (feminino, que fique bem evidente) ainda se resolve com pedras, linchamentos e prisões em alguns lugares. O normal precisa ser mulheres sendo mutiladas, porque sentir prazer é “crime e pecado”. Mulheres que devem aceitar que o macho se esfregue nelas onde e como eles quiserem. Mulheres que devem aceitar a pancada do marido. “Pelo menos tem marido”. Mulheres que devem aceitar sempre ganhar menos que os homens mesmo cumprindo o mesmo papel. Mulheres que devem estar sempre preparadas para o pior, porque se, por exemplo, for estuprada, provavelmente a culpa é dela. Mulheres que devem seguir caladas. Porque deverão estar sempre abaixo dos homens.

E Se reclamarem... É mimimi.

É muito mimimi. Não pensem que estas lutas ficaram no passado. São muitas as mulheres que seguem lutando constantemente. E a luta não para. E INCOMODA! Quer um exemplo do quanto incomoda? É quando carrascos, opressores e seus capachos chamam autoafirmação e luta de “MIMIMI”.

Foi por causa de um MIMIMI desses que o 8 de março foi declarado como o DIA INTERNACIONAL DA MULHER. Um dia que não deveria fomentar panelas, roupinhas da moda e jantares, como presente. Deveria aguçar reflexões sobre uma data que marca um massacre e que nos permitiu ampliar essa luta por dignidade da forma mais coletiva possível.

Vamos seguir lutando. Lutando muito! O Brasil ocupa o sétimo lugar no mundo em feminicídio. E ainda há quem ache que o combate à violência é exagero. Ainda há quem ache as piadinhas preconceituosas seja algo inofensivo.

Um universo patriarcal, que enfiou na cabeça das mais diversas gerações, que a família tradicional é aquela em que a mulher precisa aceitar sua condição servil. Ninguém está aqui para ser servil. Estamos aqui para fazer história.

O mundo só respira justiça quando a luta ecoa. Deixem que as pessoas do mal chamem as lutas de “mimimi”.

Porque enquanto houver chicotes, a luta NUNCA vai parar.

Guerreiras! Mulheres de verdade. Cheias de brio e sempre prontas para a guerra! Não parem. Os homens de verdade estarão do seu lado. Que assim seja! 

 

 

(André Agostinho / radioculturaviva.com)

Copie o link e compartilhe em sua rede: O"MIMIMI" DA MULHERADA

Voltar