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O NEGRO, A NEGRA E A TV BRASILEIRA

25 FEV 2016
25 de Fevereiro de 2016
Algum fulano pode ler o título e comentar: “Isso de novo?” Ou alguma beltrana pode comentar: “Lá vem mais um com mania de perseguição!”.

Bom... Talvez isso seja reflexo de um país que abafou durante anos, décadas e séculos, os que gritavam contra as injustiças, o preconceito e a exploração. Então muita gente achava que ninguém se importava.

Talvez fosse mais cômodo para a sociedade racista, que os gritos continuassem abafados, pois assim a sensação de entorpecimento de negros e negras, deixaria os racistas em sua zona de conforto. 

Quem questiona, sempre é visto pelos ilícitos, como chato, exagerado e neurótico. E isso contamina uma parte das próprias vítimas do preconceito, que para inserir-se na sociedade, passa a aceitar uma condição servil. Como diz o rapper GOG:



“(...)E os pretos, os negros, afrodescendentes...
Passaram a ser obedientes, afro-convenientes.
Nos jornais, entrevistas nas revistas
Alguns de nós, quando expõem seus pontos de vista
Tentam ser pacíficos, cordiais, amorosos
E eu penso como os dias tem sido dolorosos”



Letra visionária, sobretudo quando lemos uma entrevista com Karin Hils, uma das protagonistas da série Sexo e as Negas. A série recebeu duras críticas de pessoas e instituições de combate ao racismo. Sobre o assunto, Karin afirma que achou “uma besteira enorme. Essa polêmica, sim, é um preconceito no sentido mais estrito da palavra, já que quem a criou nem sabe do que trata a série”.






Karin, assim como as outras protagonistas, são o reflexo da “afro-conveniência” citada na música. É como citei no texto: “para inserir-se na sociedade, passa a aceitar uma condição servil”.



A mídia, em sua maioria massacrante, é um dos pilares do incentivo ao racismo. O estereótipo jogado na pele é vergonhoso. Alimenta o preconceito, manipula a imagem e, vez por outra, chega ao cinismo de promover reportagens denunciativas e debates sobre o tema, esquivando-se de sua responsabilidade. 



“Que responsabilidade?” podem perguntar os mais inocentes.



Lembram-se de Subúrbia? A negra e o sonho de ser rainha do baile funk. Essencial e suficiente para a pele.



Lembram-se da “cara da riqueza”? Os traços da mulher negra sendo motivação para a chacota da definição do que é esteticamente incorreto. Isso sem falar nos rótulos sociais. A ligação essencial do negro com a base da pirâmide.



Sabem a Globeleza? A mulher negra tem que ser a visão da mulher nua sambando.



E o Sexo e as negas? A negra fogosa... Negra para transar. Empoderar-se a partir do sexo. Isso é que é independência.



Lembram da “brincadeirinha” do programa Fantástico? Remontando 13 de maio de 1888. A festa da liberdade. Onde Joaquim Nabuco era entrevistado e se apresentava como líder do movimento “NMS – Negros, mulatos e simpatizantes”! Também na “brincadeira”, a Princesa Isabel também era entrevistada, e dizia que os ex-escravos seriam amparados pelo governo com programas como o “Bolsa Família Afrodescendente”, o “Bolsa Escola – o Senzalão da Educação” e com Palhoças Populares do programa “Minha Palhoça, minha vida”!



E o apresentador Danilo Gentili? Sempre com comentários preconceituosos, tem em seu currículo, o racismo. E nesse caso, uma pessoa agredida por ele, o acionou na justiça. E o Juiz Marcelo Matias Pereira, da 10ª Vara Criminal da Justiça de São Paulo, absolveu o “humorista”, alegando que “a abordagem [de Gentili] com seus seguidores, ainda que agressiva, tinha a intenção de fazer rir". Se fosse piada de Juiz, ele, com certeza, entenderia de uma forma diferente. Mas se é de negro, deixa rolar. País de hipocrisia.



Sobre a “brincadeirinha” do fantástico, reverbero as palavras de Negro Belchior, para a Carta Capital:



“(..)evidente que há quem leia as cenas apenas como um mero quadro humorístico e como exagero de 'nossa' parte. Mas daí surge novas perguntas:

Um regime de escravidão que durou 388 anos; Que custou o sequestro e o assassinato de aproximadamente 7 milhões de seres humanos africanos e outros tantos milhões de seus descendentes; e que fora amplamente denunciado como um dos maiores crimes de lesa-humanidade já vistos, deve/pode ser motivo de piadas?

Quantas cenas de ‘humor inteligente’ relacionado ao holocausto; Ou às vítimas de Hiroshima e Nagasaki; Ou às vítimas do Word Trade Center ou – para ficar no Brasil – às vítimas do incêndio na Boate Kiss, assistiremos em nossas noites de domingo?

Ah, mas ex-escravizados festejando em carnaval a ‘liberdade’ concebida pela áurea princesa boazinha, isso pode! E ainda com status de humor crítico e inteligente”.


Estes são apenas alguns exemplos. E mesmo com estes exemplos tão evidentes, ainda irão existir pessoas insistindo em dizer que os questionadores são exagerados. Que somos praticamente os culpados de tudo.

Os gritos estão ecoando. E não vamos nos calar. Porque como dizia Einstein: “O IMPORTANTE É NÃO PARAR DE QUESTIONAR”.


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